*Marco Túlio Damas Chaves
Ela era uma garota quieta, tímida,inteligente e sem amigos.
Era sardenta, usava grandes óculos e vivia em um mundo
completamente diferente da realidade que lhe era permitido por meio de seus
velhos livros de fantasia.
Ela tinha o sonho de se formar em psicologia e se tornar capaz de
compreender o comportamento humano em suas diferentes esferas, mesmo não sendo
capaz de compreender seus próprios comportamentos.
Seus braços e pulsos retalhados não mentiam sobre sua situação
emocional. Suas longas e grossas blusas de frio serviam como armaduras, pois escondiam
todos os seus problemas, que mesmo ocultos para aqueles ao seu redor, machucavam-na
em todas as instâncias.
Nas noites em que Sophie se pegava... se cortando, ela refletia
profundamente. Cada gota de sangue perdida era tratada como uma gota de alívio.
Cada pontada de dor que sentia, ela tratava como uma forma de expurgar seus
erros. Cada gota, um sonho. Cada sonho, uma gota.
Em um destes dias de total recaída, Sophie passou dos limites.
Sophie foi fundo em seu pulso, tão profundo quanto sua depressão.
Acertou aquilo que era considerado inalcançável. Certamente era o corte mais
fundo que já tivera feito. Sonhos escorriam por seus braços. A água na qual
estava submersa já não era mais água, já não era mais Sophie.
Os sonhos tomaram conta de toda aquela pequena banheira no segundo andar
de sua casa. Os sonhos de Sophie eram eternos, mas Sophie não era.
Sophie havia perdido muitos sonhos até aquele momento, e sem sonhos, não
havia Sophie.
As
gotas, pararam, e Sophie?
Pobre Sophie.
Naquela realidade ela já não morava.
*Marco Túlio Damas Chaves é leitor de Clarice Lispector, estudante do Ensino Médio
Imagem disponível em:
http://lounge.obviousmag.org/das_artes/2014/12/garota-interrompida.html.jpg?v=20160709090337
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