Meu caro Sancho,
Hoje, o silêncio da casa antes do sol nascer
foi meu único companheiro. Sabe, há dias em que o corpo e o relógio travam um
duelo, e hoje o despertador sequer precisou tocar. Eu já estava lá, de olhos
abertos, encarando o teto e calculando as passadas.
A meta eram 10 km, Sancho. E não era qualquer
leveza; era ritmo puxado, daqueles que exigem cada gota de concentração e não
admitem interrupções. Era para "sentar a botina". Era.
Se eu saísse para buscar esse tempo, não
estaria aqui para acordar a filha mais velha, preparar o banho e organizar a
ida para a escola. Em dias de trote leve, a gente até troca ideias com o
asfalto, vai e volta, dá um jeito. Mas hoje? Hoje a pista exigia exclusividade.
A verdade, meu fiel escudeiro, é que a noite
passada foi longa. Entre o lançamento de notas do colégio e os pequenos reparos
que uma casa sempre pede, o sono chegou tarde.
Aqui, não são desculpas esfarrapadas, você me
conhece — é apenas a vida real se impondo sobre os moinhos de vento da minha
rotina rumo à maratona. O resultado? Não deu. O treino ficou no
"quase".
Mas não desanimo, pois o cavaleiro aqui não
entrega a armadura. Amanhã a agenda estará apertada, cheia de tarefas que me
dão vida, e é nesse tom que vou encontrar uma janela para correr.
O sábado nos reserva o treino longo, o
verdadeiro teste de resistência, para que no domingo eu possa, enfim, dar o
descanso merecido aos pés e à mente.
Seguimos, Sancho. Se não foi na velocidade de
hoje, será na toada de amanhã.
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