Sancho querido,
Amanhecemos a caminho da feira nesta sexta!
Parecia dia de prova: acordei horas antes, aquela mesma eletricidade no peito.
Hoje era dia de levar uma das feirantes mais
antigas ao Mercado Municipal de Conceição do Mato Dentro. Há quase sessenta
anos, minha mãe recolhe seus trocados na feira e vem construindo amizades por
gerações.
Quanto mais cedo, melhor. Arrumo a banca com
calma, ajeito as bananas, separo o urucum e vou pesando cada saquinho antes de
o primeiro cliente despontar. “Esse é seu filho, dona Eva?”
Sancho, que mulher arretada é mamãe! Enquanto
ergue a banca, ela conversa com as amigas, vende açafrão, ovos caipira e
rosquinhas de rapadura. Não para um segundo sequer. Que força!
Antes de o sol nascer, fui dar um giro pelo
mercado e, de presente, o passado me cruzou o caminho com uma cena inesquecível
— o primeiro diagnóstico da minha loucura, Sancho.
Eu tinha uns cinco anos quando o seu Joaquim,
que cuidava da balança, sentenciou: “Esse menino parece meio atrapaiado das
ideias, dona Eva”. Entre um sorriso e outro, minha mãe rebateu de pronto: “Que
nada! Ele só é muito arteiro”.
Com apenas cinco anos, Sancho. Eu já tinha
tudo para ser. Que orgulho me dá continuar assim: perigosamente arteiro.
Abraços,
D. Farelo
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