Sancho querido,
Há três dias desaparecido, seu amigo aqui
está o puro pó da rabiola. Bem, talvez não chegue a tanto. Exagerei um pouco,
mas a verdade é que tô feito pipoca, pulando de um lado para o outro.
Ainda sinto o corpo meio tonto, fraco. Sei lá
o que aconteceu, meu caro. No sábado, o treino já começou com atraso. Para
ajudar, uma dor de barriga me pegou quando faltavam 5 das 12 voltas programadas
na Rua Cidade de Minas. Terminei e saí de casa no galope: precisava levar a
Cecília para o Simulado do Enem. O banho e o café da manhã ficaram para o meio
do caminho; o repouso necessário, esse nem existiu, Sancho.
Ao retornar para casa, antes do almoço,
inventei de abrir uma garrafa de vinho. Queria comemorar a façanha de rodar a
maior distância da minha vida até aqui — 24 km — na principal rua do bairro. O
tombo veio logo depois. Da hora da sesta até a noite do dia seguinte, fui
assolado por uma indisposição total. Daquelas de nem ter coragem de colocar a
cara na janela. Na semana passada foi a Cecília; ao longo dos dias, a esposa; e
eu, o cavaleiro tardio, fiquei por último na fila da virose.
Correr hoje? Não corri. O tempo que seria da
pista foi compensado em cima do trono. Cruz credo! E você acredita que, depois
de deixar a mais velha na escola, ainda tive a cara de pau de ir à academia?
Já que não vou meter um atestado, já que
estou cumprindo todas as obrigações e amanhã estarei firme com meus alunos, não
ia ficar de bobeira esperando a melhora cair do céu. Nada disso, Sancho. Água
de coco, xícaras de café e fé. Logo, logo estaremos de volta às pistas. Afinal,
a folha do calendário não espera: daqui a 41 dias, a Maratona. Esses pequenos
gigantes, os dias e os obstáculos, vão caindo um a um ao longo do caminho.
Que eu não desapareça por tanto tempo assim.
Um abraço







