Sancho,
Faltam vinte e quatro dias para a maratona e
a pergunta inquieta é: quando, afinal, poderei chutar para longe esta sandália
ortopédica?
Na tarde da última quarta-feira, entreguei-me
à máquina de ressonância magnética. O veredito oficial só sai no dia 9, mas,
por ironia ou providência, um dia antes já tenho consulta marcada com o
especialista. A ansiedade corre mais rápido neste momento. Não vou mentir.
Hoje é feriado santo, Sancho. Estamos na casa
da minha mãe, o lugar onde meu irmão mais velho me aguardava para o tão
esperado longão de 32 km. A rota já estava desenhada na mente: rasgar o asfalto
entre Conceição do Mato Dentro e Dom Joaquim.
Ficará para uma próxima oportunidade, meus
queridos. O destino recalculou a rota. Por aqui, recolho as armas, dedico-me às
leituras e ponho-me a digerir os acontecimentos dos últimos dias.
Mas confesso, meu fiel escudeiro: o maior
desafio de autocontrole tem sido resistir aos encantos da mesa da vovó. Saladas
frescas, abóboras bem temperadas, quitutes variados, canjica, queijos
legítimos... Ai, ai, ai, Sancho! Como explicar para o coração de mãe e avó que
o atleta lesionado precisa segurar o garfo? Não se pode fazer desfeita.
Vou ficando por aqui, meu amigo. Recolhido
nos quartéis de inverno, esperando o próximo café.
Até breve.
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