Água fria no rosto. Não é mais o meu rosto. Cecília Meireles, nessa hora, perguntaria: “em que espelho ficou perdida minha face?”
As mãos tão
diferentes, toscas, as unhas naquele estado. E a raiz branca do cabelo, à
mostra. Troço medonho. E esse olho fundo, distante? Nem sei mais que dia é
hoje. Dia da semana, do mês, nem imagino. Onde eu estava?
– Descanse um pouco.
A senhora não está conseguindo nem falar direito — disse minha filha, após o
banho de ontem.
Disso ficou apenas
uma vaga lembrança. Olha em que pessoa ingrata a vida vem me tornando: nem
agradeci à pequena Clarice por me levar para a cama.
– Que tal um banho
para acordar de vez? — sugeriu minha Cecília, a Pacífico.
A água fria
aquecendo os pensamentos, o silêncio da casa, o pente bem devagar percorrendo o
cabelo mesclado e os fios descendo pelo ralo. Tudo em câmera lenta.
Agora que já passou,
entendo. Muita coisa foi por aquele ralo: a ansiedade gerada pelos prazos cada
vez mais curtos, a pressão dos senhores que só nos cobram. Eles nos dão pouco
apoio, mas cobram, cobram muito. Ai,
ai... só um banho. Por um momento, até cheguei a sonhar de novo, mas alguém
batia à porta:
– Mãe, está tudo
bem? A senhora nunca demora debaixo do chuveiro assim.
– Está cada vez
melhor! Que café cheiroso é esse, gente? Será o do vizinho?
– Nós que
preparamos. E ó, não demora aí.
Diante do espelho
novamente. A roupa de ficar em casa. Nada de maquiagem. As marcas do tempo ali,
em cada curva da face, por volta das nove horas da manhã. O retorno?
– É tão bom te ver
de volta nesta casa, mãe. O que a senhora vai querer comer?
Ouvi minhas filhas,
levantei-me e as abracei forte, demoradamente.
– Não estou de volta
à casa, meninas. Mamãe está de volta à vida.
Crédito da imagem: Yuliia Tretynychenko







