Bati
o pé na rua e ouvi poucas e boas sobre a Magali.
— Assim que vocês abrem o portão, ela sai
feito um foguete!
— E não nega a raça — emendou a vizinha
da frente, pegando o bonde.
— Adora correr atrás de motoqueiro.
Em outros tempos, eu sentiria vergonha.
Como podiam falar assim da nossa caramelo? Hoje, já não me importo. Sinto até
orgulho quando ela se mistura aos outros "reis do pedaço":
Pipoquinha, Seu Zé e Baco-Baco. Após cumprimentar cada um com um farejo
protocolar, Magali atiça a nação canina de portão em portão.
Houve uma época, porém, em que após a
arruaça vinha o silêncio. Magali sumia por horas. De dentro de casa, enquanto
eu molhava as plantas ou passava um café, não se ouvia um pio da nossa ilustre
vagabunda.
Até que, num sábado, o sumiço se
prolongou. Família em alerta. Teria se envolvido em briga? Estaria acompanhando
algum bando? Alguém a teria roubado?
— Até parece, pai. Quem seria louco de
roubar uma vira-lata dessas? — desdenhou uma das filhas.
Não quis render a discussão. Como a rua é
pequena, o jeito era sair perguntando, vizinho por vizinho, se por acaso...
— Estão batendo no portão. Deve ser
alguém querendo que ela entre. Vai lá.
— Bom dia, Claudia. Tudo bem? Tem como
dar um pulinho na minha casa? — era Zulmira, a vizinha do meio do quarteirão.
Nessa hora, minha esposa nem para
mencionar que estávamos aflitos. Fiquei com os nervos à flor da pele.
— Seu esposo e as meninas estão aí? É bom
que venha todo mundo...
Magali não teve tempo de disfarçar a
safadeza. Ainda bem que Zulmira adora cães e se divertia com a cena: lá estava
a nossa cadela, refestelada no sofá da sala, à vontade, como se fosse a
verdadeira dona da casa. De barriga para cima, folgada, brincando com o vazio.
Assim que nos viu, começou a pular, como quem nos convidasse para explorar o
novo território.
O que fazer nessas horas?
Crédito da imagem: https://destinosporondeandei.com.br/arte-de-rua-em-sao-paulo/


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