Sancho,

 

Espero que esteja bem. Foram tantas pauladas hoje que nem tive vontade de conversar antes. Tô que sou puro desabafo, amigo.

 

Desde a pandemia, a vida do professor só veio se complicando: carga e sobrecarga de trabalho. Isso em todas as escolas, com os colegas das mais diversas instituições. Cada final de trimestre parece um dezembro de tumultos. Uma "outubrite" em pleno maio, Sancho?

 

Os professores estão adoecendo. A gente está como se tivesse passado um trator por cima. Treinei não. Quase que não consegui ir para o trabalho. Cansaço físico que nada; é mental, exaustão.

 

Vou ficando por aqui. Estou muito amargo, verdade... um tempero com pitadas de acidez. Porque aqui é papo reto, relato sem firula, longe dos filtros.

 

Tchau.


 


 

Sancho,

 

É noite já, meu amigo, e a sensação que os professores vivem ao final de cada etapa letiva se parece muito com as várias batalhas em que lutamos juntos.

 

A exatos 60 dias da maratona, após a correção de todas as provas, somos uma sucessão de cacos, só o bagaço. O pó.

 

Reclamação? Claro que não! Tenho motivos de sobra para expressar minha eterna gratidão. Venha conferir como foi um pouco do meu dia:

 

Às 04h01 eu já estava na principal rua da nossa quebrada, aquecendo para o segundo teste de 5 km que mencionei ontem. Assim que o terminei, passei em casa para acordar a Cecília, minha filha mais velha. Depois, retornei e corri mais 8 km. Um feito digno de nota, Sancho. Ainda não sei o resultado oficial, mas o fato é que consegui sobreviver.

 

Mesmo sem gás de cozinha em casa e com pouca Vitamina S, no trabalho houve tempo para a devolutiva das provas, finalização de conteúdo e alguns lançamentos de notas.

 

À tarde, vivi um momento inesquecível, daqueles em que a gente diz: “Muito obrigado, Deus! Eu vivi para assistir a um espetáculo dessa natureza!”

 

Trilha sonora impecável, sincronicidade mil, o clássico e o contemporâneo entrecruzados no palco da pluralidade e da nossa diversidade... do Brasil para o mundo: “PIRACEMA”, do Grupo Corpo.

 

Ah, Sancho, simplesmente inenarrável. Terminar um dia de trabalho com arte foi um suspiro de alento. Que este registro chegue a você como um sinal de renovação e esperança. Agora, preciso ir: é hora de buscar minhas filhas.

 

Até breve.

 

...

 


Sancho, a gente nem se viu ontem. Hora de me desculpar também com quem veio acompanhar nossas conversas e não encontrou nada por aqui.

 

Como teremos um feriado na próxima sexta, alterei os dias de treino. Isso mudou muita coisa, meu amigo. Comecei a semana com 15 tiros de 400 metros na esteira. E não é que gostei? Hoje foram apenas 45 minutos, bem leves.

 

Agora, só de pensar na programação de amanhã, dá um frio daqueles na espinha. Será um teste de 5 km, o segundo do ciclo. Meu Deus!

 

Alimentação regada a carboidrato (na medida), roupa separada, esparadrapos nas unhas que ainda restam e dormir cedo. Vou precisar de Vitamina S.

 

Até lá, Sancho, vamos rir um pouco? Coisas da vida de professor:


Justamente na hora da prova de matemática, passa o carro da pamonha quentinha, do bolo, do suco de milho verde... "Tá gostoso! Tá uma delícia!"


Eu nunca tinha visto uma turma tão religiosa, mas, na primeira oportunidade, fecham com o diabo e colam... Como gostam de cometer esse pecado, Sancho!

 

Era isso por hoje. Reze por mim, meu amigo.


 


Noite de domingo,

 

Sancho amigo, tive um dia de pernas para o ar. Consegui ficar um tempo até longe do celular, ali antes de encomendar o frango assado para o almoço.

 

Neste dia de descanso, não há treino. Só começo a trabalhar no final da tarde, início da noite. Importante deixar registrado que, nesta data, o mundo da corrida assistiu a um fato absurdo. Fantástico!

 

O queniano Sebastian Sawe estabeleceu um novo recorde mundial na maratona, tornando-se o primeiro homem a correr abaixo de 2 horas em uma prova oficial. O guerreiro venceu a Maratona de Londres, em 26 de abril de 2026, com o tempo histórico de 1h59min30s. Consegue imaginar esse tempo, Sancho?

 

Por aqui, em nossas palhoças de seres reais, tomei um susto daqueles com a planilha de treino que acabou de chegar. Que Deus nos abençoe, meu amigo! O chicote vai cantar.

 

Faltam 63 dias para o dia da prova. A cada semana, uma série de descobertas. Uma delas, que tem mexido bastante comigo, diz respeito à vontade de aprender, experimentar e desengavetar projetos antigos. Quer saber a real? Estou apreciando bastante este ciclo de treinamento. Pronto, confessei! O que vem por aí? Deixo nas mãos de Deus, meu irmão.

 

Agora, preciso cuidar de outras coisas. Vou escrever uma carta para uma pessoa muito importante com quem a vida nos presenteou ao longo da jornada do empreendedorismo cultural.

 

Abraço,

...


 


Tarde de sábado, seu safado!

 

Sancho, Sancho, meu amigo, quase apanhei em casa no início da tarde. Eu ia contar para a dona esposa que lá no Bar do Coquinho eu conheci a tal da Germana.

 

Nos seus tempos de boteco, você chegou a experimentar uma dose da Germana? Por falar em aguardente, Sancho, seus amigos todos lá querem notícias suas. Cadê o Pança? Ele está bem? Continua fofo? Você é muito popular, meu amigo. Será que, quando ela descobrir, a patroa vai me xingar?

 

Estou te contando essas coisas porque eu precisava comemorar o LONGÃO de hoje. E, claro, já mando um salve para quem lá da BH Run estiver lendo este texto. Graças à assessoria deles, seguimos firmes aí no ciclo de treinamento.

 

Sancho, hoje estava tudo certo para dar errado. Não é trocadilho barato não, moço. Começou zebrando ontem à tarde/noite. Hidratação capenga por conta das atividades do instituto, fiquei muito tempo sem comer, o jantar lá pelas tantas, umas 23h. Exausto, dormi tarde para madrugar. Comecei o dia indo três vezes ao banheiro antes de descer para a pista. Barriga pesada, a falta de vitamina S; mas fui assim mesmo: disciplina.

 

Escolhi o lado da Pampulha que ainda tem matinho, caso batesse algum desconforto... se é que você me entende. O treino não encaixava de jeito maneira: ora rápido demais, às vezes abaixo do proposto; mas me mantive firme. Não parei. E água gelada na cara, na garganta, na cabeça, porque o sol já castigava. Pela graça de Deus e pela constância que venho buscando manter — com todo o apoio da assessoria —, conseguimos, Sancho.

 

Em comemoração, a Germana me fez companhia enquanto era preparada a porção de tropeiro e torresmo para a família. Eita nós!

 

Aqui, sobre essas atividades do instituto, a gente conversa depois, demorou? Agora tenho um compromisso: uma batalha de hip hop para prestigiar.

 

Fui.

 

...


 

Querido Sancho,

 

Que semana incrível estamos vivendo, hein?! Foram tantas mancadas, vacilos tão grandes que nem consigo listá-los todos aqui.

 

Ah, mas como sei que você vai ficar curioso, aí vão alguns: passei um tempão preparando a aula especial sobre o Naturalismo, mas confundi a data. Na minha cabeça, seria no dia 22, só que rolou ontem. Pelo menos valeu cada segundo com os nossos viajantes... uma aventura pelo final do século XIX.

 

Há três semanas, pensei que tivesse enviado um documento importante para um dos setores de apoio da escola. Só ficou no pensamento. Quase morri de vergonha quando fui cobrado e assumi o descuido.

 

O dia de ontem foi tão tranquilo, mas tão "de boa", que não tive tempo nem para tomar café da manhã, acredita? Só que, no meio desse caos todo, tive mais uma ideia estranha: antecipar o final de semana com as atividades culturais, marcando a estreia com um "filtro de horário" nos stories do Instagram — @farelodequiat — vai que alguém queira nos seguir por lá?


22:04 — No porão de casa, selecionando obras literárias para um evento do “Instituto Livros em Todo Lugar”.

 

22:41 — Curadoria concluída, hora de se preparar para dormir um pouco.


04:50 — Já de pé, preparado para o treino leve de corrida.


05:53 — Treino concluído, dentro do carro para levar a filha mais velha para a escola.

 

08:07 — Na Escola Estadual Boa Vista, em Contagem, preparando a biblioteca para a roda de conversa sobre a importância da leitura literária.

 

10:24 — Ação concluída com sucesso. Um salve para o nosso mediador Paulo Fernandes, que conduziu a atividade com grande maestria. Hora de voltar para casa.

 

11:27 — A segunda curadoria, em menos de 24h, para o evento que vai rolar em outra escola, dessa vez na cidade de Belo Horizonte.

 

Bem, a ideia é continuar registrando até a tarde de sábado. Que Deus nos abençoe até lá. Agora tenho que ir me preparar para as próximas ações.

 

Até breve, Sancho amigo.

 


 Meu caro Sancho,

 

Hoje, o silêncio da casa antes do sol nascer foi meu único companheiro. Sabe, há dias em que o corpo e o relógio travam um duelo, e hoje o despertador sequer precisou tocar. Eu já estava lá, de olhos abertos, encarando o teto e calculando as passadas.

 

A meta eram 10 km, Sancho. E não era qualquer leveza; era ritmo puxado, daqueles que exigem cada gota de concentração e não admitem interrupções. Era para "sentar a botina". Era.

 

Se eu saísse para buscar esse tempo, não estaria aqui para acordar a filha mais velha, preparar o banho e organizar a ida para a escola. Em dias de trote leve, a gente até troca ideias com o asfalto, vai e volta, dá um jeito. Mas hoje? Hoje a pista exigia exclusividade.

 

A verdade, meu fiel escudeiro, é que a noite passada foi longa. Entre o lançamento de notas do colégio e os pequenos reparos que uma casa sempre pede, o sono chegou tarde.

 

Aqui, não são desculpas esfarrapadas, você me conhece — é apenas a vida real se impondo sobre os moinhos de vento da minha rotina rumo à maratona. O resultado? Não deu. O treino ficou no "quase".

 

Mas não desanimo, pois o cavaleiro aqui não entrega a armadura. Amanhã a agenda estará apertada, cheia de tarefas que me dão vida, e é nesse tom que vou encontrar uma janela para correr.

 

O sábado nos reserva o treino longo, o verdadeiro teste de resistência, para que no domingo eu possa, enfim, dar o descanso merecido aos pés e à mente.

 

Seguimos, Sancho. Se não foi na velocidade de hoje, será na toada de amanhã.

 

...


 

 

Querido Sancho,

 

Nesses últimos dias, ingeri algumas cápsulas de Vitamina S. E essa última noite... bom, sem comentários. Eu me senti tão bem.

 

Sono. Consegui dormir bastante, descansar o corpo, a mente e dormir até estranhar a cama. O trote de hoje foi incrível; parecia até que eu estava de férias. Fluiu, rendeu. Pena que foram apenas 40 minutos, mas tudo bem, porque amanhã é dia de "sentar a botina". Não quero nem pensar nisso agora, amigo.

 

Sancho, na escola, peguei um estudante co-lan-do. Na hora de depositar o celular no armário, ele jurou: “não trouxe”. Estava lá, registrado na lista de presença. Passados alguns minutos, eis que surge um aparelho com a tela quebrada, escondido na cadeira, entre a parede e a perna do menino. E o pior: pedindo socorro para o GPT? Graxa.

 

Depois da aplicação de provas, seguiu-se o roteiro: reflexões sobre os “olhos de ressaca” da Capitu, lançamento de notas, preparação de aulas e aquele povo que adora conversar pelos cotovelos. Tive até que esclarecer:


— Comigo está tudo bem. Não estou doente, muito menos tomando Mounjaro, certo?

 

Agora, vou saindo de fininho, Sancho, porque ministrarei uma aula especial sobre um estilo literário lá do Século XIX.

 

Abraço,

...

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