Sancho,
Hoje o papo será diferente. O povo tem me
feito algumas perguntas nos bastidores desse Desafio e decidi responder a
algumas delas. Segure o passo e acompanhe o relatório do seu Cavaleiro.
Primeiro, perguntam muito sobre as horas.
Sabe bem que treino quando o dever permite. Quase sempre a madrugada é testemunha,
mas, às vezes, o asfalto me acolhe sob o sol da manhã, no cair da tarde ou no ritmo
da noite. Onde houver chão, haverá passada. E na rua, Sancho! Mais de 90% do caminho
é feito no mundo real; a esteira é o castigo para dias sem remédio. Inclusive,
você melhor do que ninguém sabe da minha preferência pelas manhãs frias e pelos
dias chuvosos, quando a água lava o suor e a alma. É ou não é?
Olhando para trás, quem diria? Comecei a
maluquice de correr calçando um sapatênis. De 2018 para cá, gastei mais de dez
companheiros de sola. O mais caro deles? O Corre 4, da Olympikus. Se me
perguntam sobre os badalados tênis de placa de carbono, respondo com a velha
prudência: ainda não estou preparado para tamanha tecnologia. Os pés e a
técnica marcham em ritmo lento, em pleno processo de crescimento. Quem sabe um
dia, em outras estradas?
A armadura também precisa de reparos, então
bato cartão na academia duas vezes por semana, além dos outros treinos de
força. E na alimentação, a ciência é foda. Cansei dos géis de carboidrato que
andavam me revirando o estômago e causavam enjoos; agora, testo novas fontes de
energia para o dia da nossa maratona. Depois te conto, ainda está em análise.
Aliás, por falar em comida, por volta da
quarta semana do ciclo, a engrenagem quase travou. Tive que mudar drasticamente
o cardápio e injetar mais carboidratos nas veias. Do contrário, Sancho, eu
teria surtado e abandonado a missão. A queda de energia estava detonando o
espírito, meu amigo. Esposa e filhas foram implacáveis: “Que homem amargo,
insuportável! Tá ficando um autêntico cavaleiro da triste figura.” Abençoado o
carbo que salvou a paz do lar.
Ah, só para constar e deixar registrado aos
navegantes: continuo firme, sem o auxílio de Mounjaro ou de qualquer outra
caneta emagrecedora. Aqui a gordura se queima no fogo do próprio esforço.
Gostou? Tô me achando o tal (risos).
Um forte abraço,
Farelo de Cervantes

.png)





